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Crianças do Jongo do Quilombo São José (Valença – RJ) dançando e aquecendo-se no calor da fogueira, na Festa dos Pretos Velhos – 2009 . Foto: Jr. Nascimento
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Por Renata Celani
Há mais de 10 anos o fotógrafo profissional Jr. Nascimento registra festas, procissões e outros momentos de celebração da cultura popular tradicional brasileira. Este trabalho, porém, é realizado sem fins de lucro e/ou patrocinador. As imagens das tradições afrodescendentes têm destaque especial em suas escolhas.
Ele realiza estes registros por paixão, identificação pessoal e grande respeito pelas pessoas que integram e mantêm estas tradições. Também por perceber que as imagens podem divulgar manifestações que, embora sejam representativas de nossa identidade cultural, são pouco conhecidas. Elas também ajudam a questionar preconceitos.
Jr. Nascimento enviou para a Associação Cultural Cachuera! algumas de suas imagens e também nos concedeu uma entrevista, que segue abaixo:
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Cachuera! – Quando começou seu interesse por fotografar tradições performáticas de cultura popular e por que?
Jr. Nascimento – Creio eu que em meados de 1998 comecei a registrar imagens da nossa riquíssima cultura popular, seja ela na religião, cotidiano, costumes dos povos nas festas de cada região, na arquitetura e nas comidas típicas.
Também vou anotando as receitas de vez em quando, por onde passo; quem sabe um dia sai um livro, pois no dia-a-dia de meu trabalho “comercial” meu foco principal é a fotografia de alimentos, produtos, arquitetura, shows e capa de CDs…
E meu interesse vem desde criança; filho de pais nordestinos, cresci no meio dessa cultura vendo e envolvido desde cedo com danças como pastoril, ciranda, maracatu, coco, frevo, carnaval, vaquejada, as procissões. Tudo isso sempre me fascinou.
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Sua preferência é por tradições de origem afrodescendente. Por algum motivo específico?
Na verdade, no início não… mas depois que você vai tendo o conhecimento, vai vendo que nem tudo o que falam é verdade, você vai se encantando e fortalecendo o que um dia você começou sem muito saber onde iria dar…
E como estou em São Paulo fica difícil eu correr o Brasil com recursos próprios para outros estados brasileiros, principalmente o Nordeste, que é riquíssimo em cultura e religião. Fui ficando por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, Vale do Paraíba, Espírito Santo, etc. E nestas regiões as culturas estão mais voltadas para o Jongo, Carnaval, Congada, Folia de Reis e afins, assim como há a presença de religiões afro, que me fascinam muito com sua magia, mistério, devoção, fé, sons, que me inspiram muito.
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Dentre as tradições já retratadas por você, há alguma que te chame a atenção em especial? Por que?
Nesta minha fase atual é o Jongo, porque desde o primeiro contato que eu tive com uma roda de Jongo sempre faço o possível para ir às principais festas. Fiz grandes amigos no Jongo – pessoas simples, alegres, um alto astral enorme e a energia que contagia a todos… e também por ser ele (o Jongo) o avô do samba, outra paixão que se completa em mim – eles andam lado a lado. Mas sendo Cultura Popular, independente do tema, região, o que vale é o registro e a entrega.
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Gostaríamos que você escolhesse três a cinco imagens, entre as enviadas para nós, e nos contasse um pouco sobre elas (Jr. Nascimento escreveu as legendas).
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Já estava voltando do Quilombo São José e tive de ser muito rápido nesta hora. Tive sorte em captar pela janela do ônibus esse momento, e também pelas linhas da imagem, pela simplicidade da moradia, pelo refúgio… me fez lembrar meus avós, no sertão pernambucano.
(2008, Festa dos Pretos Velhos que ocorre anualmente no Quilombo São José, em Valença – RJ. Este quilombo existe há cerca de 150 anos e é considerado o mais antigo do Estado do Rio de Janeiro. Seus moradores – 200 pessoas aproximadamente – mantêm a tradição do Jongo)
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Pelos pés calejados de uma senhora idosa, também do Quilombo São José, e que nesta hora estava com a enxada na mão… achei que era preciso mostrar a luta do povo do campo, a força deles.
(2008)
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Pela luz, numa Folia de Reis. A foto é o detalhe de um Bumba meu Boi, cuja cabeça é feita de ossos de boi e o restante do corpo é de tecidos coloridos, com armação grande e um brincante conduzindo-o por baixo.
(2008, Quilombo São José, onde anualmente também há festa de Folia de Reis)
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Pelo casal de crianças, com a missão de levantar a plateia e assegurar a nota máxima pela escola Casa do Mestiço, na Praia Grande. Este foi o primeiro desfile desta escola, que sagrou-se campeã – e 90% dela é formada por crianças e adolescentes.
(2009, Praia Grande – SP)
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Pelo mistério que se esconde embaixo das palhas, pela cura, pela saúde, mas também pelo preconceito, pelas injustiças, pela inveja e por tantos outros males que afetam os dias de hoje…
(2010, durante a Primeira Semana da Umbanda em São Paulo)
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Cachuera! – Como é a sua relação com as comunidades retratadas, em termos de uso de imagem e retorno do material (ex: entrega de cópias das imagens) para elas?
Jr. Nascimento – Eu sempre tento ajudar no que posso; disponibilizo algumas imagens para eles baixarem ou, me pedindo, sempre forneço para guardarem de lembrança, porque sem eles eu não estaria mostrando meu trabalho também.
Não tenho muito contato com as pessoas da comunidade por talvez ser um pouco tímido em ficar me apresentando, mas vou fazendo amigos por onde ando e sempre, no que eu puder somar com meu trabalho, continuarei ajudando, assim como sendo ajudado.
Em relação a diretos autorais e etc., fotografo muito com longa exposição, desfocado, com efeitos, tipos de câmeras diferentes; filmes, negativos, cromos inversos, etc. e digitais também.
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Com o barateamento e a facilidade de captação em vídeo e foto, hoje é frequente haver pessoas fotografando/gravando em vídeo festas populares. O que você acha deste aumento do interesse pelo registro – não necessariamente partindo de quem está inserido na festa, nem por fotógrafos profissionais, mas por espectadores?
Acho que a cultura popular está mudando muito. Está tendo muito mais espaço do que anos 80, 90, onde a internet não era acessível a todos, como hoje.
Em função das câmeras digitais, surgem “fotógrafos” aos montes a cada dia… por um lado isso ajuda muito as comunidades carentes divulgando-as, vendendo seus produtos, tendo um espaço maior na sociedade, restaurando seus direitos – como no caso de terras, pelos quilombolas.
Mas também isso às vezes atrapalha… eu, como fotógrafo, tento atrapalhar o mínimo possível um grupo se apresentando. Tento ser praticamente invisível quando estou no palco, ou em qualquer lugar onde eu esteja fazendo um registro. Houve uma vez, em um quilombo onde estava tendo uma apresentação, que eu só me aproximei para fotografar por cima o que os espectadores e “profissionais”, com suas câmeras, estavam fazendo com um grupo de mais ou menos 15 pessoas… eles (o grupo) ficaram comprimidos numa roda de um metro e meio porque em volta havia umas 20 câmeras… ou seja, quem é o artista? Os fotógrafos ou o grupo que se apresenta? Lembro que nessa hora fui tomar uma água para dar uma relaxada e ver que nem sempre toda essa tecnologia ajuda…
Também acontece de eles (os espectadores) desejarem fazer a foto mais próxima sem terem uma telezoom, por exemplo. Eles entram no meio e não se importam com o resto: querem a imagem e quem perde, afinal, somos todos nós…
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Você nos procurou em função de um interesse seu em desenvolver projetos na área de cultura popular. Fale-nos que tipo de projeto, ou projetos, você gostaria de realizar.
Na verdade sempre quis fazer uma exposição onde entrassem fotos com ampliações impactantes, com acompanhamento de áudio, além de um pequeno texto de informação por foto e alguma poesia curta abaixo das fotos, talvez… para ficar guardado na mente de todos que por lá passassem.
Gostaria que esta exposição gerasse um livro e no dia da inauguração também estivessem os personagens do projeto se apresentando ao vivo para o público… ou seja, uma mega exposição de cultura popular (risos)… mas o custo disso é caro. Ou seja: assim como vocês fazem, não importa o tema, mas a finalização, o conceito, o carinho e a dedicação a esta linda obra que é a cultura popular.
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Pedimos permissão a Jr. Nascimento para escolhermos também algumas fotos que ele nos havia enviado, a fim de publicá-las; ele concordou e nos contou um pouco sobre elas:
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Carnaval de 2009 na Praia Grande (SP), cobrindo a primeira participação do G.R.C.E.S. Casa do Mestiço, uma escola em que hoje 90% dos integrantes são crianças (como bateria e foliões), e que também faz um trabalho comunitário local. A partir deste desfile foram três anos de vitórias e acesso ao grupo especial da Praia Grande.
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À tarde sempre tem roda de capoeira na Festa dos Pretos Velhos, no Quilombo São José (2008).
Acho essencial mostrar a todos a importância dos quilombos por esse Brasil – e a luta de seus moradores para terem suas terras de direito. Quero mostrar ao público em geral e ao governo que os quilombolas precisam de melhores condições de vida, e ao povo de um Brasil elitizado e preconceituoso a importância da cultura negra na dança, na religião, nos costumes, no artesanato, a necessidade de respeitar nossos ancestrais.
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Grupo Folia de Reis de Valença se concentrando para sua apresentação na Festa dos Pretos Velhos no Quilombo São José (2008).
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Ciranda de Tarituba, Parati – RJ, na Festa dos Pretos Velhos, no Quilombo São José (2008).
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Jovem encantada em algum momento das apresentações na Festa dos Pretos Velhos, no Quilombo São José (2008).
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Anfitriões da festa, Jongo do Quilombo São José em apresentação durante a Festa dos Pretos Velhos (2008).
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Ogãs em apresentação na procissão para Xangô, que acontece anualmente em São Paulo (2009).
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