Apoio

Projeto de remodelação do site apoiado pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo - Programa de Ação Cultural 2008

tamanho da letra:

Resenha - Cultura Popular: uma introdução

Stelio Marras*




Dominic Strinati: Cultura popular: uma introdução. São Paulo, Hedra, 1999.

O senhor leitor, muito distinto, considera-se parte da cultura popular? Será assim quando ouve com prazer a música recente de Caetano Veloso, música popular brasileira afinal, será? Mas certa letra do músico e poeta, tão engenhosa e repleta de figuras de linguagem, exige do ouvinte uma boa iniciação na cultura letrada, braço da erudita. O senhor então será um erudito classificatório? Talvez o amigo leitor do jornal diário já se tenha perguntado se não é mais uma presa da propalada massificação, pois não? Quanto à senhora, fina leitora, aceitaria de bom grado confundir-se no torvelinho da chamada cultura de massa? A senhorita entusiasta do samba supostamente “autêntico”, aquele originado do batuque de panelas do morro ou da voz miúda de um Nelson Cavaquinho, conquanto amadora fervorosa de Guimarães Rosa, mas que se balança vivamente ao som do último pop star americano – a jovem, a que se filia? Ao “povo”, à “elite”, à “massa”? E o mancebo ouvinte do enorme Pavarotti – a que se tem? Dirá que, dada a natureza da música, se reconhece confortavelmente classificado na estreita faixa do público erudito. Será? Ou apenas engrossaria a massa popular, dada a ampla difusão do citado. Sim? Não? Mas o que é massa? Que é cultura popular? Se a dúvida lhe toca, sugiro...uma introdução ao tema: abra o livro do sociólogo Dominic Strinati. Apenas não espere soluções simples. O provável é que as dúvidas sobre o problema se tornem mais sofisticadas ao fim da leitura. E que respostas fáceis e rápidas inspirem mais cautela.

Strinati dispõe-se a pensar a relação entre cultura popular e mass media sob diversas perspectivas teóricas. Professor da universidade inglesa de Leicester, o autor admite a variedade de recursos multidisciplinares que permite examinar as teorias da cultura popular. Porém, posta a dificuldade que reconhece em integrar tudo numa “perspectiva unificada”, opta pelo viés da sociologia. Pergunta fundamental (ou que deveria ser) é feita no final do primeiro capítulo: “Mas, existe o público de massa?”. De fato, é prudente desconfiar da operacionalidade do conceito de “massa”, tão generalizante, quase vago, quanto “povo” ou mesmo “cultura popular”. Seu uso desavisado arrisca nivelar singularidades dos fenômenos sociais que se recusam veementemente à homogeneização massificada. O que por exemplo cabe sob a designação de “povo” pode ser tão díspar e tão fragmentado – tantas identidades – que só mesmo um critério de pouco envolvimento cultural, como o estritamente econômico, pode justificar sua utilização. Nesta acepção, o povo pode aparecer como sendo os estratos sociais economicamente subalternos, como os constantes das estatísticas e dos discursos políticos. Mas, culturalmente, tal classificação é mais difícil de se obter, ainda mais se lhe sobrepuser a noção de massa.

É por isso bem interessante a discussão que Strinati levanta acerca das distinções entre cultura erudita ou arte, cultura popular ou folk, e cultura de massa – Cap. 1: Cultura de massa e cultura popular. O passo é imprescindível e de fato decisivo se se quer com seriedade seguir adiante no problema. Ou seja, para tratar o caso em tela, todo e qualquer esforço inicial deve recair, antes de mais nada, na conformação clara do problema a ser investigado ou, do contrário, o assunto facilmente debanda para o inferno dos ingênuos. O mérito dessa discussão logo aparece: Strinati livra-se de pronto da noção essencializada ou substantiva do que seja cultura popular, isto é, evita a petrificação do conceito porque o localiza na variação histórica (por exemplo, a passagem do conceito de “povo”, na acepção moderna, para o de “massa”, na pós-moderna). Assim também descarta a arriscadíssima visão folclorista que tende a isolar e preservar, tal qual um espécime em extinção, supostos traços culturais que deveriam por isso mesmo ser mantidos invioláveis ou imaculados – em suma, esta certa visão infiltrada no senso comum.

Não obstante, o fôlego do autor nesse tópico termina antes do esperado. Se sua pergunta é com razão de todo procedente, Strinati no entanto poderia persegui-la com a obstinação que o problema exige, segundo entendo. Pois ele diz que prefere “evitar discutir os vários conceitos de cultura popular” e por isso apenas se restringe a aderir ao que definiu um Hebdige (autor inglês cujo nome, ao que me consta, é desconhecido nos programas e discussões das ciências sociais brasileiras). Então, cultura popular seria, ele cita, um “conjunto de artefatos comumente disponíveis: filmes, discos, roupas, programas de televisão, formas de entretenimento etc.” Esta, a definição com que enfim opera. Ora, tal renúncia só pode soar, no menos, enigmática. Seu argumento baseia-se na extrema dificuldade da conceituação, já que o entendimento de cultura popular sofre incrível variação no espaço e no tempo. Tem razão, é certo que a tarefa é penosa; mas declinar dela pode tornar o trabalho, este sim, ainda mais penoso. De todo modo, indo por aí, Strinati apega-se a uma sociologia strictu sensu e acaba por ignorar estudos micropautados ou eminentemente culturais, sejam os da história, sejam os da antropologia – para citar duas das disciplinas altamente preocupadas com o assunto.

Exemplo: não é sequer citado o paradigmático trabalho de Mikhail Bakhtin que fez colocar em suspensão a separação dos domínios do erudito e do popular mostrando, ao contrário, os empréstimos recíprocos, a “biculturalidade”, as convergências e mútuas participações, o trânsito enfim das esferas, a seminal idéia da “circularidade cultural”. O nome de Bakhtin é mencionado de passagem, em nota e indiretamente na conclusão. Outro que não mereceu o devido relevo é Peter Burke. Strinati talvez demore duas linhas no historiador. E contudo o trabalho do colega inglês, que retoma Bakhtin em perspectiva crítica, trata centralmente do que chama o “problema do popular” . Quanto a Carlo Ginzburg, historiador talvez conterrâneo de Strinati e que enfrenta de maneira criativa o tema, a negligência é total . Poder-se-ia dizer que se trata de uma escolha de método, que o ângulo da história foi preterido em favor, diria-se, da análise sincrônica de dada sociologia. Tal argumento, penso eu, seria razoável se os resultados dos estudos daqueles historiadores não fizessem revisar as teorias sobre cultura popular, não exigissem nova forma de tratar o problema. Mas o fazem, e isto não poderia – não pode – passar em brancas nuvens, como se fossem simples abordagens paralelas.

Porém, trégua ao azedume. Grande virtude do livro é apresentar uma espécie de mapeamento das correntes de pensamento que desde os anos 20 e 30 vieram se esbarrando no tema. O leitor interessado em conhecer algo sobre a escola sociológica de Frankfurt, o marxismo, o estruturalismo, a semiologia, o feminismo e o pós-modernismo, terá boa oportunidade de iniciação neste livro. Evidentemente, as teorias são retomadas para os fins do objeto do autor – os modos de entender a cultura popular ao longo da história recente do pensamento. Mesmo assim é ótima a introdução às idéias da tradição crítica de Frankfurt – Adorno, Marcuse, Horkheimer –, sua origem, a natureza de seu pensamento, a ênfase no “fetiche da mercadoria” baseado no conceito marxiano de “valor de troca” para explicar a estruturação e reprodução da indústria cultural. A pergunta que formula na altura da página 83 – “se a indústria cultural é tão poderosa, por que ela julga ser tão difícil determinar de onde vem a próxima canção de sucesso ou o filme campeão de audiência?” — pode balizar a dicotomia que opõe passividade e atividade do público, emissão e recepção de mensagens, poder e submissão, teoria da cultura de massa e o que chama de “populismo cultural”, a perspectiva da economia política, vezo elitista, à perspectiva popular. Acompanhar a variação dessas dicotomias é também, sugiro, uma maneira clara e organizada de ler o livro.

As considerações de Strinati sobre o modo como a teoria marxista trata o problema da cultura popular culminam no elogio à noção gramsciana de “hegemonia”, que de fato se mostra muito versátil para pensar a relação entre dominadores e subordinados porque “introduz elementos de consentimento e consenso ausentes nas teorias marxistas alternativas de ideologia e cultura”(164). Com isso, a idéia mecânica de manipulação cede ao “compromisso de equilíbrio” (Gramsci), que é condição para a eficácia da hegemonia, ou seja, prevê, portanto, senão a negociação (como entre mass media e público, elite e povo, dominadores e dominados, poder e aceitação, emissão e recepção etc.), ao menos a recíproca conformação de interesses. Assim, se a dominação não se exerce sob o expediente da coerção (física, no limite – como a dos regimes totalitários, por exemplo), a hegemonia, que é igualmente dominação, como a veiculada pelos meios de comunicação, ela para se realizar depende da assimilação pública dos signos emitidos. A hegemonia é o composto de idéias que forma a “superestrutura” social, embasamento das ideologias que sustentam o modo material de produção da vida, ou a “infraestrutura”. A distinção do velho Marx, entre superestrutura e infraestrutura, encontra desenvolvimento sofisticado e mais esclarecedor em Gramsci. E por isso, confirma-o Strinati, as idéias do marxista italiano tão bem se prestam à análise cultural, como a da cultura popular. Porque essas são idéias que recusam o dogmatismo economicista, tão comum ao marxismo mais vulgarizado e às vezes tão fácil de ser aplicado; desta sorte, são idéias que saem rejuvenescidas da prova histórica. De resto, vamos notar, o interesse atual por Gramsci deve ser compreendido por essa sua sagacidade teórica.

Porém, adianto desculpas, devo voltar ao acre destas linhas. Porque, como se sabe, quanto maior o projeto ambicionado, maiores os riscos. Por exemplo, o entendimento do estruturalismo de Lévi-Strauss aparece altamente frágil. O autor faz a crítica ao estruturalismo porque este não lida bem com o contexto histórico e social, e assim não lidará bem com o campo da cultura popular. Mas, francamente!, não era para menos: Strinati parece não ter compreendido o objeto do estruturalismo levistraussiano que pouco pode dizer ao problema da cultura popular e sua relação com os meios de comunicação de massa. Lévi-Strauss nunca se propôs a tal objeto; é como desvirtuar a teoria. Agora, se quer ver uma boa aplicação dos recursos metodológicos do estruturalismo, isto fora de seu campo original, vá por exemplo a Carlo Ginzburg . De todo modo, o estruturalismo do antropólogo francês não poderá prestar muita contribuição ao assunto recortado por Strinati. Por isso é perigoso tentar forçar uma adequação de seu método e de sua metodologia a um problema alheio a seu horizonte de preocupações – como no que se fia nosso autor. Daí, desencaminhadas as soluções, Strinati, injustamente e sem cerimônia, assevera que o estruturalismo e seu mentor estão minados nos seus pressupostos. A competência e a seriedade do livro maculam-se nessa passagem que podia ser perfeitamente prescindível. Isto posto, repito, o livro continua recomendável.

Por fim convém sublinhar um último senão – extrínseco ao livro, intrínseco à leitura brasileira. O tratamento dado ao tema, como pelo exame das teorias citadas, não deverá nos munir dos instrumentos analíticos irrevogavelmente adequados a pensar o tema para o caso brasileiro. Tal passagem reclama cautela. As categorias de popular e erudito, alta e baixa cultura, folk e mass media, e sobretudo a relação entre elas, exigem rigorosa historicização. O que pode bem servir às culturas ocidentais do norte, pode sofrer incrível desajuste trespassada a linha do equador. O Brasil – não vai nisto nenhum chamado tolo ou ufanista por especificidade –, o Brasil é mais embaixo. Nossa leitora e nosso leitor, críticos e atentos contra uma leitura massificada, irão se lembrar disso. Não irão?



*Stelio Marras é doutorando em Antropologia Social pela FFLCH/USP, pesquisador do LISA/USP e membro do corpo editorial da revista Sexta-Feira - Antropologia, Artes e Humanidades.