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Grandes temas


Os fios da trama: grandes temas da música popular tradicional brasileira, artigo de Marianna Monteiro e Paulo Dias, está na edição de setembro/2010 da Revista do Instituto de Estudos Avançados da USP (volume 4, nº 69). Acesse aqui o texto e veja abaixo resumo do mesmo. 

RESUMO

Nos cantos, danças e folguedos populares brasileiros, podemos encontrar um feixe de motivos entrelaçados, padrões multicores de um tecido de que conviria procurar e acompanhar cada um dos fios aí urdidos e tramados, agrupando-os segundo sua textura ou coloração. Essas diferentes linhas temáticas, os fios da trama das expressões artísticas e religiosas do povo brasileiro são o assunto deste artigo, que procura analisar formas culturais caracterizadas pela hibridação, as quais transitam muitas vezes na ambiguidade entre resistência e aceitação de um padrão cultural dominante. O dinamismo dos arranjos de um certo número de motivos condutores recorrentes no âmbito da cultura de tradição oral brasileira nos leva a especular sobre os processos de formação de suas práticas artísticas, bem como sobre sua circulação num país de dimensões continentais.

Palavras chave: Música popular brasileira, Cultura popular, Folclore.

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E abaixo você acessa uma síntese em texto, áudio e vídeo, do artigo de Paulo e Marianna.




Grandes temas das tradições brasileiras de música e dança

Marianna Monteiro e Paulo Dias



Se por um lado as tradições de música e dança brasileiras impressionam pela diversidade regional, por outro mostram aspectos de unidade, na recorrência de certos temas ou núcleos de sentido que permitem reuni-las em grandes grupos ou famílias, independente de sua territorialidade. No curso da formação da cultura popular tradicional do Brasil, processos históricos e sociais similares, ligados à implantação de determinadas instituições por todo o país (por exemplo, a catequese, o latifúndio monoprodutor, o escravismo) orientaram a consolidação de conteúdos narrativos, personagens, articulações religiosas e formas de expressão recorrentes no vasto conjunto de manifestações de música, dança e teatro que hoje assistimos por todo o país. São fios condutores a se entrelaçar no vasto tecido das expressões artísticas e religiosas do povo brasileiro, fiados nos teares da História partir da memória coletiva das etnias que aqui se confrontaram.

Da interação entre os povos indígenas e os catequistas surgem, pela via da contrafação cultural (jesuítas inserindo conteúdos cristãos em danças indígenas), determinadas modalidades de canto e dança que poderíamos definir como jesuítico-indígenas; a presença de índios e suas manifestações expressivas em festas e procissões, posteriormente encampadas por outros grupos étnico-sociais, contribuem para a fixação da imagem do índio (caboclo) nas danças e folguedos do povo miscigenado. Já a reterritorialização do catolicismo popular português no Brasil conduz a novas elaborações do culto aos santos e da celebração da natividade e do Divino Espírito Santo através da música e da dança.

A implantação das irmandades negras católicas como mediadoras da inserção social do negro permitem a multiplicação por todo o país dos cortejos de reis congos ou congadas, ligados ao culto afro-brasileiro a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito; à representação teatral de batalhas interétnicas africanas nas congadas, vista pelo branco como guerra justa, interpõe-se a fábula do avanço inexorável do cristianismo, que se multiplica em vários folguedos: a da guerra entre cristãos e mouros.

Por sua vez, antigas epopéias portuguesas de marinheiros, representadas em diferentes danças dramáticas, são lidas pelos negros das irmandades como a triste saga transatlântica dos antepassados africanos a bordo dos navios negreiros.

A política de proibição e aceitação das expressões dos negros, enquanto enaltece as congadas como “diversão honesta” dos negros, relega à marginalidade as formas artísticas e religiosas fora do âmbito da cristianização, tidas como “desonestas” ; é o caso dos batuques de terrreiro e das religiões afro-brasileiras, que se firmam como espaços de resistência e construção de uma identidade afro-brasileira. Nas cidades, um gradual processo de laicização e urbanização da cultura incentiva a multiplicação de divertimentos como os bailes profanos e as cantorias de repente nas residências e salões e de autos populares em locais públicos, como os que encenam a morte e ressurreição do boi.

Ganham força as festividades do carnaval e seus cortejos, contexto laico de que emerge o samba urbano como nova versão, socialmente ampliada, de “diversão honesta” – agora para negros, mestiços e brancos.

Adiante, uma breve exposição de cada tema, bem como uma relação de suas formas expressivas regionais: