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Cachuera! de Música - Introdução

Alberto Ikeda, Paulo Dias e Sérgio Carvalho



Cachuera! (1), palavra com que batizamos nossa instituição e também este projeto, é proferida nas rodas de Jongo (2) pelo jongueiro que deseja expressar seu ponto – sua mensagem cantada – para a comunidade que o cerca. Sugere também uma caudalosa e inesgotável torrente de água, onde todos os afluentes, todas as águas se unem, lançando-se no espaço em busca de um novo leito.

O projeto Cachuera! de Música tem como objetivo geral propiciar a ampliação das possibilidades de fruição musical do público, o alargamento de seus horizontes estéticos mediante a aproximação de universos musicais que normalmente se mantêm apartados. O objetivo específico é a formação de um público capaz de apreciar as diferentes vertentes do fazer musical presentes na sociedade brasileira contemporânea, compreendendo melhor tanto suas especificidades quanto suas conexões históricas, culturais e estéticas .

O projeto nasceu da vontade de propiciarmos um diálogo entre as culturas musicais e artísticas, que hoje se encontram estanquizadas em nossa sociedade onde, na maioria das vezes, o mercado é quem condiciona os padrões do gosto e circunscreve os públicos. A necessidade de romper as barreiras postas à fruição estética se coloca como forma urgente de resistência à cisão nos domínios da arte, que ocorre em detrimento das potencialidades e experiências humanizadoras. A arte então é chamada a transformar não o mundo mas as consciências que o transformarão. Visando colocar face a face os vários aspectos cindidos da cultura humana, em sua versão musical, é que criamos o projeto Cachuera! de Música.

A idéia é trazer para um mesmo palco, em datas alternadas, artistas que representem diferentes vertentes socioculturais do fazer musical no Brasil, sendo as apresentações acompanhadas de comentários de especialistas e de um diálogo dos músicos com a platéia. Isto poderá criar para o público a oportunidade de reelaborar os contornos de seu gosto, tornando-se cada ouvinte, paulatinamente, liberado dos preconceitos que os separam da apreciação de outros universos musicais que não unicamente os da sua “tribo” – ou “segmento de mercado”, como quer a indústria cultural. Afinal, o patrimônio imaterial da humanidade, em que a música se insere como parte importantíssima da cultura dos povos, deveria poder ser usufruído por todo e qualquer cidadão.

Eis os três afluentes da Cachuera! de Música:


. A Música Popular Tradicional Brasileira representa a produção musical do povo brasileiro, transmitida de boca a ouvido há incontáveis gerações e mantida por comunidades com poucos recursos materiais, que compõem a base da pirâmide social do país. Músicas que, embora marcadas por heranças dos diferentes povos formadores da nossa cultura, são hoje patrimônio dos brasileiros, independente da cor da pele, podendo ser ouvida tanto nas roças quanto nas cidades e suas periferias.

A música popular de tradição oral, associada quase sempre a outras formas de expressão, como a dança, o teatro, a improvisação poética, só adquire pleno significado no contexto da celebração coletiva. Assim, a festa popular é um dos ambientes por excelência dessa produção musical. É música interessada, como notou Mário de Andrade, na medida em que cumpre funções rituais ou festivas e não se destina unicamente a entreter uma platéia – ao contrário, a comunidade participa de maneira ativa dos eventos musicais. Não obstante os músicos da tradição oral serem especialistas reconhecidos como tal pelos seus pares, raramente vivem da música – atividade na maioria das vezes associada à devoção religiosa . E também pouco se preocupam com autoria, já que a criação artística na oralidade adquire uma dimensão coletiva (mas não anônima).

Embora lastreadas numa herança ancestral, as manifestações musicais do povo acompanham a dinâmica de uma sociedade onde as mudanças ocorrem em velocidade crescente, sempre procurando se inserir em novos quadros sociais. Se as tradicionais festas “de sítio” tornam-se raras hoje em dia, nem por isso, no universo da cultura caipira, a dança do catira desaparece; pelo contrário, multiplicam-se os grupos de catireiros (agora também com mulheres e crianças), ao encontrarem nas modernas festas de peão de boiadeiro novos espaços de apresentação.

A música popular tradicional tem-se mantido como cultura de resistência, paralela à cultura “oficial”, representando para as comunidades que a cultivam uma importante referência na construção da identidade. Pouco conhecida de grande parte da população brasileira até bem pouco tempo atrás, a partir das últimas décadas as músicas de tradição oral vêm passando por um processo de revalorização, principalmente via mercado fonográfico e meios de comunicação de massa, cuja atividade atual se sobrepõe ao trabalho muito mais antigo, árduo e silencioso de folcloristas , antropólogos e etnomusicólogos.


. A Música Popular Brasileira é reconhecida em todo o mundo por sua riqueza, variedade e inesgotável vigor criativo. Nascida, em muitos casos, nos bairros humildes das grandes cidades brasileiras, ela constrói a ponte entre os terreiros e quintais dos negros, mestiços e brancos pobres e a sociedade dominante branca. É bem conhecido o caso do Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e início do XX, onde foi gestado o maxixe, o choro e o samba a partir do encontro, fusão e estilização de variadas tradições populares, de origem afro-brasileira e européia. Sambistas dos grupos populares passam a ser reconhecidos como artistas pela elite, tornam-se autores e adentram os teatros. Logo são contratados pela nascente indústria fonográfica (a partir de 1917), pelas emissoras de rádio (a partir de 1922, mas sobretudo na década de 30, quando as rádios passam a funcionar em moldes comerciais), e mais tarde, de TV. Processo semelhante ocorre com outros gêneros, como o forró.

A música popular cria vínculos praticamente indissociáveis com aqueles meios de comunicação de massa, e se desenvolve num contexto cada vez mais urbanizado e laico, influenciada por e influenciando uma música popular que se mundializa: primeiro, gêneros como a valsa, a polca e a schottisch, depois o jazz e o rock. À medida que suas músicas tornam-se mercadorias, como acontece por todo o mundo capitalista, os compositores passam cada vez mais a ter sua produção vinculada à lógica do mercado de entretenimento - por exemplo, a obrigatoriedade de compor segundo os padrões e nos gêneros da moda. As vendagens milionárias significam não sofisticação, mas quase sempre simplificação e empobrecimento estético, como nos mostra Theodor Adorno em seus escritos.

De extração social variada, os músicos populares compõem hoje uma vasta categoria de artistas profissionais que bebem das mais diversas fontes, da música de tradição oral à erudita. Nesse universo atuam, lado a lado, tanto aqueles instrumentistas, cantores e arranjadores formados na “escola da vida” quanto os que estudaram na renomada Berklee-EUA. Assim, a nossa MPB resulta num impressionante gradiente de musicalidades cujos pólos seriam, de um lado, a música de tradição oral, fortemente ligada à dança, ao canto, à gestualidade popular, e, de outro, a música “pura”, quase sempre instrumental, de caráter mais abstrato. Seja como fôr, a música popular urbana tem hoje uma presença importantíssima no dia-a-dia de qualquer brasileiro.


. A Música Erudita - Em diferentes sociedades, a chamada arte “erudita” ou “clássica” resulta, em muitos casos, da estilização, depuração, elaboração de tradições artísticas nascidas nos meios populares, que ocorrem no bojo de um processo histórico de apropriação dessas formas por uma elite dirigente, política ou religiosa. A música erudita ocidental, hoje praticada no Brasil e em todo o mundo, tem seu berço na Europa medieval, num tempo em que música era um bem ainda relativamente compartilhado por diferentes categorias sociais.

A hierarquização das sociedades européias em estamentos sociais cada vez mais afastados, desde a Idade Média, vai operar também uma cisão entre os públicos. A ascensão de uma nobreza ligada às monarquias centralizadas contribui para a privatização da arte musical, que passa a ser cultivada nos palácios e residências nobres. Posteriormente, o surgimento e consolidação da burguesia confina essa mesma música entre as paredes dos teatros. Do lado de fora permanece o povo com suas tradições musicais, preservadas pela tradição oral e vivificadas pela performance multi-expressiva (múcica +dança+representação+…). Nos salões das classes abastadas desenvolve-se uma música “culta”, que aos poucos se desvincula da gestualidade, cria seus próprios gêneros, diferentes dos populares e adota a escrita como suporte. Com o tempo seus principais compositores passam a ser conhecidos, com obras divulgadas por meio das partituras copiadas ou impressas (e, a partir do século XX, gravadas em disco). A música torna-se, assim, fortemente autoral, sofistica-se cada vez mais e caminha na direção de uma arte pura, que chega a atingir altos níveis de abstração. Ao longo de sua história, a música erudita vai mudando e sua produção vai-se acumulando, perfazendo hoje vastíssimo repertório. Os estilos historicamente diferenciados vem sendo valorizados pelos intérpretes atuais, que recorrem a disciplinas como a musicologia histórica para compreender melhor suas regras de interpretação.

Não obstante os esforços em favor de uma popularização desse patrimônio fundamental da humanidade, através, sobretudo, da ação educativa, a apreciação da música erudita nos países do terceiro mundo ainda permanece restrita a determinados grupos.


A música em três afluentes

A série mensal do Cachuera! de Música consta da apresentação de três grupos musicais (um por semana) , cada um deles pertencente a um dos domínios da produção musical brasileira: tradicional, popular e erudita. Cada mês será dedicado a um tema básico da linguagem musical: em março, percussão (ritmo); em abril, canto coral (polifonia); em maio, canção (melodia acompanhada); em junho, a forma suíte (forma); em julho, cordas (timbre); em agosto, sopros (timbre). Esse agrupamento visa, por um lado, permitir que o público elabore conceitos sobre as dimensões fundamentais da arte musical, pelo contato vivo com músicos de diferentes linhas; por outro, proporciona para esse mesmo público a experiência de poder relacionar os três afluentes e perceber os modos de escuta peculiares a cada um deles, seus pontos de contato e de contraste, notadamente no que toca o próprio ato de fazer música – por quê?, quando?, para quem?. Assim, procuraremos preservar, tanto quanto possível, a ritualidade particular que assume o evento musical em cada um desses universos, a qual se traduz inclusive numa maior ou menor interação dos artistas com o público: a festa para a música popular tradicional, o show para a música popular urbana e o concerto para a erudita.

As apresentações em nosso espaço de arena serão acompanhadas dos comentários de um especialista, o qual ao final irá dialogar com os músicos e lhes solicitar exemplos musicais; em seguida esse bate-papo será aberto à platéia. No domingo subseqüente à sua apresentação no Espaço Cachuera!, o grupo de música popular tradicional programado para cada mês será levado também ao CEU Butantã, com a mediação de um arte-educador.

Todos os 18 espetáculos apresentados no Espaço Cachuera! serão gravados com equipamento de áudio profissional, visando a elaboração de uma série radiofônica em 6 programas, representando um apanhado de cada tema desenvolvido mensalmente nas três vertentes do Cachuera de Música. Também a partir dessas gravações, será produzido um CD com 18 faixas apresentando uma síntese musical de todo o projeto, a ser distribuído gratuitamente para instituições de ensino e os músicos e comunidades participantes.

É importante notar que a aproximação entre culturas musicais proposto no projeto Cachuera! de Música não se orienta pelo princípio simplista de ser a música uma “linguagem universal” compreendida por todo e qualquer ser humano, nem pelo devaneio pós-moderno de se “abolir os limites”, operando misturas ou fusões entre os repertórios dos diferentes campos. O que se pretende é suscitar a percepção de intersecções e contrastes, do “igual” e do “diferente”, da necessidade de uma pluralidade de escutas, no intuito de criar subsídios à (trans)formação do gosto.



Notas

1) Pronúncia popular da palavra cachoeira (queda d’água).
2) Dança de roda de comunidades negras da região Sudeste, de herança congo- angola, ao som de tambores, com cantorias, muitas vezes, na forma de enigmas.

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Veja também:

Mais detalhes de Cachuera! de Música.

Outros textos relacionados ao projeto: